Um olhar despido de preconceitos expõe a relação dos surfistas com a produtividade, mostrando como as aparências enganam

Já sabemos que, nos dias de hoje, o surf surge referenciado de forma sistemática nos mais inesperados contextos. No entanto, é sempre refrescante encontrar uma visã distinta que, de forma original, consegue ler esta atividade segundo um prisma até então inédito, mesmo que a ideia já tenha cruzado o salgado espaço entre as duas orelhas dos mais ferrenhos surfistas.

Renée Fishman é uma premiada agente imobiliária nova-iorquina, consultora de marketing e comunicação na era digital, blogger e coach motivacional. O seu website pessoal My Meadow Report reúne vários textos em torno da sua jornada de permanente busca de aperfeiçoamento e aumento de produtividade profissional a par do bem-estar pessoal.

Os relatos são feitos em tom pessoal e, se à primeira vista, o discurso parece resvalar para os manuais de autoajuda, uma leitura mais atenta revela uma abordagem curiosa e criativa aos temas, como a que aqui trazemos.

Fishman, que se iniciou nas ondas a partir da vaga de atenção que o surf obteve após uma histórica e única etapa do World Tour realizada em Nova Iorque, procede a uma desconstrução do mito do surfista preguiçoso através da segmentação do conceito de produtividade em três elementos básicos:

Eficácia (a capacidade de atingir o resultado desejado ou planificado)
Eficiência (atingir os objetivos com o mínimo de recursos despendidos)
Energia (a vitalidade e o foco empregues na persecução dos objetivos).

A partir daqui a autora traça um paralelo com o comportamento e postura dos surfistas, identificando padrões que aos olhos do cidadão comum podem ser interpretados como atitudes de desleixo e desinteresse, mas que, na verdade, incorporam cada um dos elementos de produtividade acima enunciados.

Como sabemos, o surf é uma atividade de grande exigência física, que requer imensa persistência, conhecimentos específicos sobre as condições de mar e climatéricas e uma flexibilidade horária incompatível com a maior parte das agendas profissionais e pessoais. Ao compreender estas características, a autora passou a interpretar os comportamentos dos surfistas à luz das suas necessidades segundo uma ótica de produtividade, ou seja: como atingir o objetivo final — apanhar as melhores ondas e surfar o melhor possível — com o máximo de eficiência e eficácia.

Nessa ótica, Fishman percebeu que o tempo passado na praia, sem surfar, mais do que um momento de ócio inconsequente, é, na verdade, uma forma dos surfistas conservarem a energia a ser despendida quando as condições ficarem ideais.

Do mesmo modo, todas aquelas horas passadas na areia, nas rochas, ou nos parques de
estacionamento das praias, em que estão aparentemente entregues à mera convivência social ou em plena procrastinação, contribuem para uma familiarização com o oceano que se traduz numa compreensão objetiva do comportamento do mar, das marés, das correntes, da direção das ondulações, o que irá resultar numa maior capacidade de identificação das ondas de qualidade, minimizando o fator-erro e aumentando o rácio de diversão — o grau de eficiência — de cada sessão de surf.

Por fim, há a questão do condicionamento físico, da aquisição e domínio das técnicas básicas de equilíbrio e performance num meio instável, e do longo, extenuante, processo de acerto e erro necessários para atingir um grau satisfatório de destreza que faça a distinção entre um aprendiz diletante e um verdadeiro surfista. Isso exige anos, décadas de dedicação e condicionamento a regras muitas vezes incontroláveis, por serem ditadas pela natureza.

Não é como ir ao ginásio fazer uma rotina de exercícios ou ir a um campo para uma partida de um jogo com bola, ou pedalar para a estrada.

Embora todos os desportos possam clamar por condições ideais, no surf a mera existência de condições está determinada por uma série de imponderáveis que condicionam o dia-a-dia dos seus adeptos, fazendo passar por obsessão o que mais não é do que uma exigência intrínseca do desporto.

No final do artigo, contudo, a autora deixa escapar um bocado de uma fascinação idealizante dos surfistas, com referências à suposta conexão espiritual com a natureza que, convenhamos, pode ser verdadeira para alguns mas que está longe de ser transversal a todos os surfistas e que, quando acontece, está tanto do lado do recetor quanto da atividade.

Apesar disso, a visão da autora de My Meadow Report ajuda a iluminar de forma bastante original um mito que durante muito tempo tem estigmatizado o surf e seus praticantes. E só por isso já é merecedora de uma vénia.